MELINDA E HORÁCIO
O DEPOIMENTO DE MELINDA
1- Lá pelo Largo da Quinta, pra quem conhece, tem uma oficina de artesãos, a Prado Vasconcelos, onde ainda nos dias de hoje trabalham, além de velhos mestres artífices, um bom número de aprendizes, ávidos por se fazerem também raros especialistas num ofício que perdeu muito do seu brilho e importância, infelizmente, para o declínio do bom gosto, que é o que se vê nestes insípidos dias de hoje.
2- E quem, nesta tumultuada cidade de circos, nunca pronunciou ou ouviu falar o nome Prado Vasconcelos, que também nomeia uma das ruas mais elegantes da Quinta.
3- Diziam que o velho Senhor Prado, fundador da oficina, conhecido entre os mais próximos como Mestre Vasco, descendente de uma verdadeira dinastia, era dotado de uma capacidade sem igual para chegar à beleza através daquilo que fazia.
4- Naqueles tempos ainda era glorioso atingir o êxtase da beleza.
5- Não quero dizer com isso que atualmente não mais se pode encontrar os que conseguem alcançá-la.
6- Existem sim, mas são raros.
7- No solar do Mestre Vasco se criavam, em madeira, os móveis e objetos mais e desejados pelos homens ricos da cidade.
8- O Mestre não era um homem de modos comuns, mas ainda assim era cheio de muito boa fama e respeito.
9- Suas peças: toucadores, psichês, indiscretos, e esculpidos em estilo Império, Luis XVI, ou Noveau, na sua oficina, eram encomendados por reis, príncipes, nobres e homens ricos de muito além das fronteiras.
10- Dentre os que ali oficiavam, havia um rapaz em especial, um dos filhos do Mestre, Horácio, o construtor de veleiros.
11- Alguns, mais conservadores, que o conheceram, logo se lembram dele como alguém que gostava de levar a vida sem apego, sem posses, sem responsabilidades.
12- “Um doidivanas!”.
13- “Parecia viver de sonhos e a esperar algo que nunca vinha”.
14- “Era por isso, por conta de fazer questão de parecer um lunático feliz e risonho, que dava desgostos ao seu pai”.
15- A verdade é que depois que o velho mestre morreu, Horácio, talvez como sua única forma conhecida de sentir tristeza, se meteu em buscas incertas pelas terras estrangeiras, estava infelizmente livre para abraçar o mundo.
16- Por conta dessas idas e vindas, acabou por provar de muitas aventuras sim, mas de dores também.
17- E as dores, talvez, estamparam nele um triste semblante, quase sempre sereno, ensimesmado, com um olhar pesado, quase totalmente sem as alegrias dos tempos do porto.
18- Horácio, ao contrário dos jovens de sua idade, tomado por sentimentos autodestrutivos, alistou-se voluntariamente para defender uma bandeira qualquer durante a guerra.
19- Ele se fez soldado contra forças inimigas quem sabe porque dentro dele, dentro do seu peito, o seu coração ou estava a ponto de explodir ou estava vazio demais.
20- Foi na sua volta, sete anos depois, que mostrou ter perdido de vez as paixões comuns e os laços convencionais com o mundo.
21- Horácio, do modo como tinha planejado, perdeu parte de si mesmo, desconstruindo finalmente o que julgava somente uma consequência dos outros.
22- Ainda assim, mesmo que as consequências de uma guerra contra um inimigo desconhecido tenham lhe tornado frio, mesmo que uma outra guerra, travada dentro dele mesmo o tivesse libertado desse nosso mundo, que talvez por ignorância julguemos tão onipotente, ele se mantinha, no seu extravio, com uma certa doçura, com uma doce tranquilidade.
23- Talvez, Horácio mais que qualquer um de nós, pudesse medir, sem esforço e sem nenhuma mentira, as belezas verdadeiras da vida, vistas através de seus olhos livres.
24- Nos tempos de minha infância, era comum que eu o visse no porto, experimentando seus pequenos veleiros de cedro, que aos olhos do Mestre Vasco eram um desperdício de tempo e talento natural.
25- Verdade é que aqueles seus brinquedos de gente grande eram de uma beleza e perfeição indescritíveis.
26- A prova disso é que muitos cidadãos se acumulavam por ali, no porto, nos domingos festivos perto da quaresma, em que bandeirinhas coloridas enfeitavam os mastros das embarcações e nas torres das antigas construções da cidade antiga se penduravam guirlandas.
27- A cidade inteira dobrava os olhos para ver a maravilha que eram os veleiros tão cheios de vida, nascidos da hábeis mãos do filho caçula de Mestre Vasco.
28- As crianças, e em especial as moças, ficavam fascinadas.
29- Os veleiros que ele construía transmitiam liberdade, elegância.
30- Apesar de pequenos, enfrentavam as ondas com ímpeto.
31- Horácio os deixava sumir das vistas, abandonava-os à deriva, com as velas içadas, nas manhãs dominicais de abril.
32- Ele ficava ali observando as pequenas naus a enfrentar, sozinhas e sem comandantes ou marujos, a imensidão do mar.
33- Quem pudesse ver de perto Horácio, perceberia que, quase sempre, quando um dos seus veleiros se portava tão bem por sobre as águas e alcançava o horizonte, seus olhos estavam lagrimados.
34- Horácio e seus pequenos veleiros de cedro... Eu daria a minha vida para entender aquele sentimento e o que ele significava.
35- Geralmente, também era nesse instante que Horácio sorria, um raro instante, onde se podia ver, que havia no mundo dos homens, alguma coisa que fazia que da alma de Horácio brotasse um sorriso tão intenso.
36- Era como se ele soubesse e conhecesse a dimensão divina que dá abrigo aos que se perdem no mar, e por isso, descobrem a razão porque o riso e o choro, são frutos da mesma essência humana.
37- O próprio Horácio estava no mar, eu sentia isso no meu coração de menina.
38- Horácio era da mesma espécie de seus veleiros.
39- Cada veleiro de Horácio que alcançava o horizonte levava dele um mesmo aroma, proveniente de um lugar muito precioso, onde talvez morasse sua alma e todos os outros que em sua vida... amava.
40- Nos instantes em que o vento terral começava a soprar, nos instantes em que tudo na sua vida dependia do vento que levasse para bem distante da terra toda a dor do mundo, Horácio, pros dos meus olhos, se tornava o único justo da terra.
41- Todos os deuses de todo o universo, todos eles juntos, se viravam para admirar aquele jovem rapaz.
42- E eu tenho certeza, que se havia entre todos estes santos deuses, algum, que por alguma mesura ou ira, ou até mesmo simplesmente por vaidade, quisesse destruir o mundo, naquele instante, naquele exato instante, em que podiam ver a felicidade esperançosa na alegria juvenil de Horácio, essa ideia não tão absurda, se dissipava em suas inúteis mentes divinas.
43- E assim eu acreditava o mundo estava salvo até o próximo abril.
44- Ele salvava também o meu próprio mundo.
45- Ele era o maior dentre os quase mil salvadores de minha vida.
46- Quando eu via um veleiro de Horácio a sumindo no horizonte, eu também via toda a terra, toda a nossa pequena terra azul, um planeta, planeta... um imenso planeta...
47- flutuando como um grão de areia no universo,
48- salvo da ira dos deuses
49- pelas mãos do desatento
50- do “doidivanas”
51- Horácio
52- de Prado
53- e Vasconcelos
54- um reles construtor de veleiros em cedro.
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